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Incio Outros Percursos MARIA DE SOUSA

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A CIENTISTA MARIA DE SOUSA, AO SABER QUE ESTAVA INFECTADA COM COVID-19 E CONSCIENTE DA SUA SITUAO DE ALTO RISCO, DESPEDIU-SE COM AS SEGUINTES PALAVRAS:

 

 

Espero perdurar por via dos que ficam vivos

 

 

Por mais dolorosa e triste que seja a morte, a vida tal como a conhecemos na Terra infinita. As novas geraes sucedem-se ciclicamente e cabe sempre a elas a construo do nosso futuro colectivo.


Faz parte de ser jovem estar convencido de que vamos ser capazes de mudar o mundo para melhor.

Eu j no sou cronologicamente jovem, mas continuo a acreditar num cenrio optimista para o futuro da humanidade!

preciso coragem para mudar, sobretudo quando o nosso estilo de vida actual to confortvel.

No entanto, as evidncias cientficas so irrefutveis: a explorao que o homem est a fazer da natureza insustentvel.


Vivemos obcecados pelo crescimento econmico, mas no possvel que as economias de todos os pases continuem a crescer indefinidamente. Considero fundamental que os jovens de hoje se consciencializem dos inevitveis riscos a curto prazo e faam ouvir a sua voz, pressionando a sociedade para a mudana.


Acredito que a cincia e a tecnologia vo tornar-se ainda mais essenciais nas nossas vidas. Precisamos de observaes e medies rigorosas de tudo o que se passa em todos os locais do planeta para estarmos alerta e sabermos onde actuar. Mas acima de tudo precisamos de novas solues para viver em harmonia com a Terra, desde novas formas de nos deslocarmos a novas formas de nos alimentarmos e reciclarmos o lixo que produzimos. Novas solues para um problema no surgem de repente a partir do nada. So necessrios anos de intensa investigao cientfica, e muitos problemas esto ainda por resolver.


Por exemplo, a propsito da actual pandemia, importa lembrar que entre 1918 e 1919 ocorreu um surto de infeco causada por um novo vrus da gripe que matou cerca de 50 milhes de pessoas em todo o mundo. J se usavam mscaras de proteco, desinfectantes e distanciamento social, mas no havia testes de diagnstico, nem medicamentos, nem ventiladores. A 1 vacina para a gripe foi desenvolvida em 1940 e aplicada apenas em militares. S em 1960, aps uma pandemia causada por um novo vrus da gripe que entre 1957 e 1958 matou mais de um milho de pessoas em todo o mundo, iniciaram-se os programas de vacinao para grupos de risco (isto , pessoas com doenas crnicas ou com mais de 65 anos). Uma vacina confere imunidade contra um tipo especfico de vrus. Ora, o vrus da gripe altera com muita frequncia a sua informao gentica, dando origem a novas formas de vrus que escapam ao efeito da vacina. Esta diversidade gentica d tambm origem, ocasionalmente, a formas de vrus mais agressivas que causam pandemias. Foi o que voltou a acontecer em 1968, com mais de um milho de mortes em todo o mundo, e apenas h dez anos, em 2009, causando a morte de cerca de 600 mil pessoas a nvel mundial. Porque a capacidade de se reinventar geneticamente uma caracterstica de todos os vrus, a humanidade sempre esteve e vai continuar a estar sujeita a surtos de infeco por novos vrus. Foi o caso do VIH vrus da imunodeficincia humana, causador da sida. Esta nova doena comeou a ser detectada em 1981 nos EUA e j matou 32 milhes de pessoas no mundo. Em 1994, a sida era, nos EUA, a principal causa de morte de pessoas entre os 25 e os 44 anos. S em 1995 comearam a ser ensaiados os primeiros medicamentos que viriam a ter um grande sucesso, evitando as mortes e transformando a sida numa doena crnica.


Mais recentemente, em 2003, foram reportados na China os 1s casos duma nova doena respiratria denominada SARS, causada por um coronavrus parente do actual SARS-CoV-2. Em plena pandemia, a sociedade pede muito aos cientistas medicamentos e vacinas eficazes.


Que lies tirar para o futuro? Acima de tudo, as novas geraes tm de estar conscientes de que vo ser confrontadas com grandes desafios. A falta de respeito pelos animais selvagens, vtimas de captura e comercializao, favorece a infeo humana por novos vrus (ou outros micro-organismos patognicos) que podero causar mortalidades bem mais altas do que a actual pandemia. Muitos modelos ainda praticados na indstria agropecuria incentivam a destruio de florestas, interferem com a qualidade dos solos, so poluidores e favorecem a propagao de epidemias em plantas e animais. Vo certamente ocorrer grandes desastres naturais como fogos, tempestades e terramotos. As alteraes climticas so uma realidade instalada. Vai faltar a gua e aumentar a poluio. As sociedades do futuro vo depender da cincia e da tecnologia para lidar com catstrofes. Mas as sociedades de hoje insistem em ignorar os mltiplos alertas dos cientistas para perigos eminentes que ainda podem ser evitados.


Por isso, deixo aqui o meu apelo s novas geraes para acabarem de vez com a iluso de que vai ser possvel continuar a viver com os hbitos de hoje e a fazer os negcios do costume. O meu outro apelo para valorizarem e cultivarem a cincia. Todos os jovens, independentemente das suas profisses futuras, devem ser treinados a aplicar o mtodo cientfico nos problemas com que se deparam no dia-a-dia. Rigor na observao, raciocnio lgico nas dedues, concluses baseadas em experimentao. Em paralelo, as profisses ligadas cincia tm de ser atractivas e apetecveis. Tal implica organizao, infraestrutura e recursos em permanente actualizao.


Finalmente, um alerta: todas as reas do saber so igualmente importantes. Os avanos tecnolgicos mais transformativos resultaram de descobertas que podiam, primeira vista, parecer irrelevantes. Para o avano da cincia no h temas de investigao inteis, desde que as perguntas sejam bem formuladas.


E a cincia no pode deixar de avanar, sob pena de no sermos capazes de resolver os imensos desafios com que nos vamos deparar!

 

Maria de Sousa

 

 

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Mrio Avelar, Maria de Sousa, Carlos Carreiras e Salvato Teles de Menezes na Apresentao do projecto para a Casa Reynaldo dos Santos no Centro Cultural de Cascais em Julho de 2017

 

O CONSELHO DIRECTIVO DA FUNDAO D. LUS I JUNTA-SE AO PRESIDENTE DA CMARA MUNICIPAL, CARLOS CARREIRAS, NO PROFUNDO PESAR PELO DESAPARECIMENTO DA SUA CONSELHEIRA E AMIGA PROF. EMRITA MARIA DE SOUSA, SEM CUJA COLABORAO EMPENHADA NO TERIA SIDO POSSVEL LANAR E DESENVOLVER O PROJECTO DO CENTRO DE ESTUDOS DAS RELAES ENTRE ARTE E CINCIA QUE, NUM FUTURO PRXIMO, FICAR SEDEADO NA CASA REYNALDO DOS SANTOS E IRENE QUILH DOS SANTOS, NA PAREDE.

 

Maria de Sousa (1939-2020)


Morreu esta noite a professora emrita Maria de Sousa, imunologista cuja investigao sobre os linfcitos feita quando estava em Londres, nos Laboratrios de Biologia Experimental de Mill Hill, figura em todos os trabalhos publicados sobre essa importante rea do conhecimento mdico-cientfico, e o seu desaparecimento , para mim, motivo de extraordinrio pesar.


Conheci a Prof Maria de Sousa h alguns anos devido ao seu envolvimento no projecto de criao de um Centro de Estudo das Relaes entre Arte e Cincia, um tema que lhe era caro, na Casa Reynaldo dos Santos e Irene Quilh dos Santos, e nasceu de imediato entre ns uma estima pessoal que transcendeu qualquer tipo de formalismo. Sempre que nos encontrmos para analisar a evoluo do projecto, que seria (e ser) realizado em parceria com a Fundao D. Lus I, entidade municipal da qual Maria de Sousa membro do Conselho da Fundao, pude perceber a firmeza de carcter, a dedicao s causas que tanto acalentava e a sua grande disponibilidade para colaborar com a Cmara Municipal de Cascais, j manifestada, alis, de forma inequvoca, na doao que fez e est, muito justamente, guardada no referido equipamento municipal sito na freguesia da Parede, prestes a ser sujeito ao incio dos trabalhos de adaptao definidos, agora que esto concludos todos os procedimentos administrativos indispensveis.


Quero, portanto, reiterar os meus sinceros votos de pesar por esta perda para a Cincia e a Cultura portuguesas, bem como para o projecto que temos entre mos e que prosseguir at ser uma realidade que se tornar a nossa forma de homenagear a memria de quem tanto carinho e apreo mostrou pelo nosso Concelho.


Cascais e eu prprio perdemos uma Amiga.


Carlos Carreiras
Presidente da Cmara Municipal de Cascais

 


 

 

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