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MANUEL VALENTE ALVES

755 MANUEL VALENTE ALVES

 

MANUEL VALENTE ALVES

Stimmung - O Sentimento da Paisagem


CENTRO CULTURAL DE CASCAIS (piso 0), 6 ABRIL A 20 JUNHO 2021

 

"STIMMUNG – O sentimento da paisagem" é uma instalação de Manuel Valente Alves cujo ponto de partida é uma pintura de acrílico sobre tela do autor, datada de 1989. Esta pintura icónica assemelha-se a uma matriz, um modelo de representação da paisagem: um quadrado dentro de um quadrado a lembrar a perspectiva, o céu e a terra separados pela linha do horizonte, uma árvore e uma montanha. Desde então e até muito recentemente Manuel Valente Alves tem utilizado a fotografia, o vídeo e o desenho como técnicas e suportes preferenciais para criar instalações, desenvolver séries e outros projectos, nomeadamente de edição em livro, em DVD e na web.

MVA - 2

Sem título [da série Stimmung ], 2020
Pinturas, acrílico sobre tela, 100x100 cm
 
 
Em "STIMMUNG – O sentimento da paisagem", que decorre na Fundação D. Luís I, em Cascais o autor retoma a pintura, agora associada ao vídeo, à fotografia e ao desenho. A instalação organiza-se em 3 núcleos, 3 salas, a partir desta pintura icónica de 1989
Na primeira sala sãoo expostas paisagens imaginárias e céus com nuvens, sem lugar nem tempo definidos, pintadas com acrílico sobre tela, numa estratégia de representação atemporal, pré-romântica.

Na segunda sala será exposta uma paisagem pintada, também imaginária, e uma projecção vídeo, "My Ocean". Porque o sentimento da paisagem não é possível sem a sua experiência vivencial, este vídeo é uma peça central da exposição. Traduz a experiência vivida pelo de um lugar concreto, o Parque Natural Sintra-Cascais, durante um período temporal específico, entre Outubro de 2019 e Março de 2020. Durante esses seis meses, no decorrer das inúmeras caminhadas e passeios que realizou ao longo da costa, junto ao mar, o autor foi anotando em vídeo, através da câmara do meu smartphone, as impressões do lugar, as suas variações atmosféricas. A montagem exprime a ligação do autor a este lugar tão especial, onde a natureza e a cultura se interligam.

Na terceira sala estarão expostas um grupo de fotografias antigas e recentes e uma série de desenhos e pinturas recntes. Neste núcleo, o sentimento da paisagem complexifica-se. Surge o jardim. A arquitectura impõe-se, a cultura tenta domesticar a natureza. Emerge então o conceito de Arcádia, um modelo de paraíso terrestre idealizado por Virgílio. Lugar de beleza e fruição da natureza, certamente, mas também de violência e barbárie humanas.

 
 

 

 
 
A imagem da paisagem

Ano sim, ano não, vou a Veneza. Não faço esta viagem, que tem sempre lugar no fim do Verão, apenas na expectativa de um reencontro com a sereníssima cidade. Na decisão de partir influi sempre a vontade de ver arte, não apenas a arte contemporânea que a Bienal nos oferece em anos ímpares, mas aquela que, a cada esquina, em cada ponte, em cada ruela ou curva de um canal, enche os olhos confirma aquilo que eu esperava reencontrar antes de partir.

Quando chego a Veneza, apanho o autocarro que, do aeroporto, me deixa na Piazalle Roma. Daqui, tenho duas hipóteses: ou o vaporetto mais rápido, que contorna o buliçoso canal e me deixa quase à porta do hotel, ou o percurso mais demorado, que desce o Gran Canale, demorando-se em cada estação para despejar e recolher um molho de turistas e locais. Este é o melhor; é o único que me permite sentir que verdadeiramente cheguei ao meu destino, no encontro com a paisagem de Veneza, a mesma que trago dentro de mim e que espero voltar a ver uma e outra vez.

O que é a paisagem? Manuel Valente Alves escolheu, para título desta sua exposição, Stimmung – O sentimento da paisagem. Não foi por acaso que optou por uma palavra alemã, numa alusão ao Romantismo germânico, que, não apenas significa sentimento, mas humor, estado de espírito. Acrescentou-lhe o genitivo "da paisagem", como se esta fosse um organismo que tivesse sentimentos, paixões, vontades, desalentos. Ou o seu contrário, que não é de todo exclusivo da primeira premissa. Será que a paisagem é um sentimento? Será que eu posso identificar esse sentimento, essa reacção, que é também fisiológica, no momento em que contemplo ou convoco a paisagem?

Voltemos à viagem a Veneza. Desde o século XVII, desde Canaletto , que esta é uma cidade que atrai não apenas pintores, ávidos da luz incomparável que se derrama sobre a laguna, rarefeita pelas brumas do final da tarde, mas escritores, poetas, músicos, entre toda a espécie de viajantes desejosos de experimentar eles também, ao vivo, as imagens divulgadas por centenas de suporte de toda a espécie. Queremos, nós também, homens e mulheres do século XXI, afrontar o calor, a humidade, os mosquitos que não deixam abrir uma janela à noite, o barulho e os encontrões para termos a mesma – achamos nós! – experiência que tantos outros tiveram antes de nós. Neste sentido, o que eu vou encontrar em Veneza é, de facto, uma experiência e, porque não dizê-lo, um sentimento. A paisagem que vou descobrir estará, em primeiro lugar, dentro de mim. Depende da minha fisiologia, do meu corpo; dos meus olhos, dos meus ouvidos, do meu sentido do olfacto, da minha percepção, enfim, e da minha memória.

Mas que paisagem é essa? Será, por exemplo, a vista que da ponte da Academia se abre sobre a Salute e a laguna. Neste caso, de tão repetida e fotografada, é impossível dissocia-la de todos os edifícos que bordam o Gran Canal, da cúpula branca da igreja, ao fundo do lado direito, das janelas corridas dos palácios, dos postes de amarração e do trânsito buliçoso dos barcos. Com poucas diferenças, é a mesma vista que Canaletto pintou, que ele fixou definitivamente no grande arquivo das imagens, que outros se esforçaram, esforçam e esforçarão por repetir enquanto houver Veneza.

Repare-se que esta paisagem não é indissociável da cidade. Ela, na realidade nunca o é, pois é a cidade – a cultura e a civilização – que permitem a difícil definição de Natureza. Natureza é tudo o que está fora da cidade, tudo o que foge às leis da perspectiva linear, e isto embora a mesma perspectiva seja, como sempre foi desde o século XV, um modo de aprisionar o espaço dentro do rectângulo da pintura. A paisagem identifica-se assim com a Natureza, e esta identificação é tão forte que, na viajem a Veneza, eu procuro a pintura da cidade. Que no meu íntimo mais íntimo, é uma só com aquilo que vejo.
 
 

MVA - 3

Sem título [da série Stimmung ], 2020 2021
Desenhos, grafite, tinta da china e acrílico sobre papel, cada 65x50 cm
 

Em Stimmung – O sentimento da paisagem, Manuel Valente Alves parte de uma sua pintura relativamente antiga, de forma quadrada, que coloca em situação todos os elementos deste género pictórico. Lá estão quatro dos elementos constitutivos da pintura de paisagem: a terra, a montanha, a árvore e o céu. Sem matizes nem gradações cromáticas, a pintura apresenta-nos, sob uma forma que convoca a ideia de janela para o mundo (propósito da pintura moderna) um enunciado simples de algo que hoje em dia é sobejamente redundante.

A obra, na sua simplicidade, sem matizes nem riqueza cromática alguma, apresentando formas elementares que se diriam tiradas de um dicionário visual (isto é uma árvore, isto é uma montanha...) nada diz, nada conta a não ser a sua própria existência. Na realidade, era esse o propósito da pintura de paisagem. Desde que foi inventada como género, desde o século XVI, que ela prescindiu de contar histórias. A pintura de paisagem é, sem mais. E, de certa forma, todas as pinturas de paisagem se equivalem, excepto pela qualidade da própria pintura e pelo génio e criatividade do pintor. Antes deste marco inicial, durante toda a Idade Média, ela é decoração, cenário, fundo imaginado onde decorre uma estória. Antes disso ainda, mais longe, ela nem existe como conceito: os gregos não têm palavra para significar a paisagem, e não mencionam nunca a cor azul, essa mesmo que hoje é para nós evidente como atributo do céu, por oposição à terra*.
 
 
Voltamos a Veneza, de novo, e à Tempestade de Giorgione, na Academia de que já falámos acima. Esta que é a primeira pintura onde a paisagem toma o lugar principal – e onde não há estória, mau grado todas as interpretações que dela se fizeram...

Nesta exposição, Manuel Valente Alves opera a decomposição da pintura de paisagem nos seus diversos elementos. Encontramos as rochas, a água, as nuvens e os campos. Encontramos até, algures, algo que se assemelha a uma ruína, um dos adereços quase inevitáveis da paisagem romântica, suporte de uma meditação melancólica sobre a decadência e a morte. Noutros núcleos, há lugar para os elementos culturais que permitiram operar a transformação do cenário em assunto principal: a coluna,feita à imagem do tronco de árvore, a figura humana, medida de todo o espaço, os elementos construídos, suporte de toda a representação perspéctica linear. Mais longe, já em fotografia, as aves, o mar, ainda a figura humana e por fim a linha do horizonte.

E porque tudo o que nos mostra é pintura, fotografia e mesmo filme, o que nos revela realmente é que a paisagem não existe, de facto, fora de mim. Nesse sentido, eu sinto-a, eu sei que a sensação que eu espero dela se materializa no meu corpo, e não fora dele. Manuel Valente Alves cita a paisagem, nunca a apresenta nem representa. E mesmo o filme que escolheu para integrar esta exposição, uma montagem de planos tirados em praias do Parque Natural de Sintra-Cascais, não trata realmente de paisagens, mas de evocações de paisagens já vistas, já mostradas, um sentimento que perdura quando já não é possível reinventar este género. E nem mesmo as crianças que brincam, ou os cavaleiros que caracolam na rebentação das ondas, nos podem convencer de outra coisa.

E, aqui como em Veneza, é a memória da pintura que me permite ver a paisagem.
 
 
Luísa Soares de Oliveira
 
 
* Anne Cauquelin, em A Invenção da Paisagem (Edições 70, 2008),
estabelece uma útil genealogia do conceito de paisagem, demonstrando como ele é uma criação cultural.
 
MVA - 4
Hamburgo, 13 Janeiro de 2001 [da série Le Temps Retrouvé ], 2001
Fotografia, impressão em cibachrome , colagem sob acrílico e sobre alumínio, 121x148 cm
 
Sem titulo [da série Cadmo e Harmonia], 2007
Fotografia impressão a jacto de tinta, colagem sobre pvc, 70×100cm

 

 

 

 

Manuel Valente Alves, curador e artista visual.


Manuel Valente Alves nasceu em Abrantes. Vive e trabalha em Lisboa. Formou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa. O seu trabalho como artista visual centra-se no conceito de paisagem, através do qual investiga, complexifica e questiona as relações entre a natureza e a cultura, a arte e a ciência, o mito e a realidade. Utiliza como técnicas preferenciais, a pintura, o desenho, a fotografia e o vídeo, através das quais cria séries, instalações e outros projectos, nomeadamente de edição em livro e na web.

Desde 1983, realizou cerca de três dezenas de exposições individuais e participou em mais de quatro dezenas de colectivas em museus, galerias e outras instituições de arte, em Portugal e no estrangeiro: Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa), Instituto Alemão (Lisboa), Cooperativa Árvore (Porto), Fundação de Serralves (Porto), Culturgest (Lisboa), Museu do Chiado (Lisboa), Centro Português de Fotografia (Porto), Centro Cultural de Belém (Lisboa), Museu Nacional de Arte Antiga (Lisboa), CAV – Centro de Artes Visuais (Coimbra), Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporâneo (Almada), Palais des Beaux Arts (Bruxelas), Frankfurter Kunsverein (Frankfurt), Circulo de Bellas Artes (Madrid), Canal Isabel II (Madrid), Marco – Museu de Arte Contemporânea (Campo Grande, Brasil), Galeria Diferença (Lisboa), Galeria Graça Fonseca (Lisboa), Galeria Luís Serpa (Lisboa), entre outras.

Publicou vários livros de artista e filmes em DVD e tem desenvolvido projectos online. Encontra-se representado em numerosas colecções privadas e públicas: Caixa Geral de Depósitos (Lisboa), Câmara Municipal de Lisboa (Lisboa), Colecção Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea (Almada), Colecção Nacional de Fotografia (Porto), Museu Calouste Gulbenkian – Colecção Moderna (Lisboa), Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul (Campo Grande, Brasil), entre outras.

 

 

 

 

Catálogo Manuel Valente Alves

 

 

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