755 MASTABA

 

 

 

MASTABA, Hugo Bernardo

Reportando ao étimo em torno da origem da Mastaba, ruína primordial e o protótipo da arquitectura piramidal na forma de um leito de pedra, surge a metáfora do túmulo como residência eterna. O receptáculo sagrado afirma-se pela evocação dessa infinitude como potência criadora.
Deste modo, imagens distintas em diversos suportes, exploram oniricamente essa mesma alteridade ficcional. Objectos, gravuras e pinturas encenam um jogo instalativo, numa relação sobre a matéria omissa, que percute e ecoa na interioridade desta e de qualquer capela.
Um panteão miniatura como lugar de culto, paradeiro de símbolos sobre códigos indizíveis, convoca uma idolatria transmutada. O próprio arquivo da história surge assim como tempo espectral na tensão que ainda assim perdura.



 

 500mastaba
 Sem Título (mastaba #2), 2021 | Óleo sobre tela, 35 x 25 cm
 

 

 

DIOGO BOLOTA À CONVERSA COM HUGO BERNARDO


(entrevista realizada a 01 de Agosto de 2021)

 

 

DB. A possibilidade do som na tua obra remete para a existência de um tempo presente nas tuas obras. Que relação estabeleces entre a duração sonora e o fazer artístico?

HB. O som interessa-me pela sua evanescência e espacialidade. No seu silêncio surge a miragem de uma experiência transcendente. É de facto um dispositivo imersivo, seja o som cinematográfico que perfaz a imagem ou a durabilidade da hipnose musical a par do fazer artístico.

 

DB. Imagina-te como performer. No lastro da acção resulta a reminiscência do corpo.

De que forma esta experiência será transformadora? Será o desejo de uma força durável?

HB. Imagino um conflito entre o efémero e o perene. O cinema repete esse ritual, o filme que se degrada ou o concerto sem gravação e ainda a experiência do quadro como epifania. Ultimamente uma fronteira entre o estável e o precário, penso que a minha acção expressa essa transformação viva que morre.

 

DB. Sob o título de Mastaba, retomas nesta série uma proposta originária destinada à intervenção numa capela inactiva, voltamos novamente a um tempo remoto? Queres falar-nos do mote da memória enquanto reedificar de uma hipotética ruína na tua obra?

HB. Mastaba reporta a uma edificação petrificada, a espiritualidade materializada na sua clausura e a interioridade como paradeiro funerário. A função desta capela reforça a memória desse lugar, o da ruína como espaço mágico detentor de um arquivo posto no presente.

 

DB. Marco Polo estabeleceu uma concepção sobre a Ásia no Ocidente, nas suas viagens introduziu a ideia de como concebemos esse exotismo. Nas tuas imagens que beneficio antropológico julgas trazer para a comunidade e cultura em que vives?

HB. Nada de inédito.... Faço uma apropriação desse exotismo, um orientalismo à maneira das 1001 noites acompanhado pela indagação sobre o fetiche de uma caricatura cultural (tal como refere Edward Said). Em suma, reflicto sobre a holística, o destino e a origem da humanidade na sua hibridez cigana. Símbolos iconográficos, almerienses, totémicos ou africanos reencenam a minha descoberta antropológica e o conhecimento científico sobre essa evidência.

 

DB. Será que a música que tu tocas, aquilo que aludes com o teu alaúde é relativo a isso mesmo?

HB. Sim é essa dubiez e poética histórica, o mito como universalidade e significado comum sobre um paradeiro de pertença. Ultimamente uma procura sem resposta sobre o destino dos nossos desejos e ambições – quem somos e para onde vamos.

 

DB. E tu que tens uma voz grave achas que o teu trabalho incorpora essa mesma gravidade?

HB. (Risos...) Possivelmente. A ideia de que a vida é um jogo evade a sua intensidade e força. O facto de ser lúdica não deve afastar a possibilidade de algo estrutural, o vínculo identitário sobre quem somos. De facto, uma crença sobre a nossa colectividade em nome de um mundo melhor. Sou sério no meu intuito de forma quase épica.

 

DB. Acreditas em Fábulas? Que história poderias contar ou partilhar, uma fábula que agregasse ou que fosse estrutural à tua prática artística.

HB. As Fábulas do La Fontaine ilustradas pelo Doré são das coisas que mais gostei e falam de uma moral subjacente, uma didáctica infantil elementar, mas fundamental. As mitologias e os mitos falam dessas narrativas, mas de um modo menos literal, algo na génese vago e que integra a minha obra. A fábula está vinculada à ideia de ilustração, factos narrativos e informativos como no conto da cigarra e da formiga, no entanto procuro sempre algo mais além.

 

DB. Na figuração da cigarra e da formiga parece que se afirma simultaneamente uma abstracção alusiva destes mesmos símbolos.

HB. Gosto de pensar nesse sentido figurado abstracto, invocar figuras justamente para falar da sua ausência, tal como no caso do som. Algo concreto que se revela na sua excedência. É esse o jogo que pretendo, uma espécie de parêntesis sobre as coisas como forma de reflectir sobre as imagens.

 

DB. Falámos sobre a concepção entre aquilo que somos e o que desejamos ser, nessa tua busca o que te parece conclusivo sobre este tema?

HB. Aquilo que queremos e o que somos é distópico ou um ideal. A arte é existencial quanto ao contexto da sua realidade, agir comodamente ou por convenção obedece a uma ideologia estéril e alheia. Julgo que importante é levantar dúvidas sobre a nossa individualidade a um nível emocional, filosófico, político e social. A linguagem artística congrega isto tudo, intensifica o sentido da vida.

 

DB. Definitivamente quais as tuas grandes questões? O que te contagia e oferece ânimo?

HB. São geralmente as coisas que me excedem, transcendem ou despertam curiosidade, o desconhecido é o que me impele. São histórias sobre a ideia de ordem e caos e as suas forças indomáveis. O limiar entre o operativo e o disfuncional e os seus pontos de contacto, é isso que me move.

 

DB. Comove-te mais a vida ou a morte? Um amigo disse-me em tempos que a felicidade era algo que intensamente o comovia. Achas que traz mais felicidade a intensidade da vida ou a hipótese do luto?

HB. Tudo requere comoção, paixão para com a vida sendo que esta inclui a morte. Esse luto também é vital visto que até aquilo que morre faz nascer (como diria Hieráclito). O meu trabalho aborda esse pousio sobre os sítios ocultos, as pequenas e transitórias coisas.

 

DB. Sabias que os monges tibetanos desenhavam com o auxílio de um ovo de madeira a realidade enquanto extensão da mente. Imagina um lugar que gostarias de aceder ou um sítio que não tivesses visitado, como é que voltarias?

HB. Penso que a criação será sempre sobre essa viagem sem retorno.

 

 

 500 S.Título Ídolos 2021. Serigrafia s.papel fabriano artístico 300gr 165 x 140 cm
Sem Título (Ídolos), 2021. Serigrafia sobre papel fabriano artístico 300gr, 165 x 140 cm

 

 

HUGO BERNARDO (Lisboa, 1988)


Formou-se em Pintura e Desenho no Ar.Co - Centro de Arte e Comunicação Visual, onde completou o Curso Avançado de Artes Plásticas (2013). Em 2021 conclui o Mestrado em Pintura na Faculdade de Belas Artes (FBAUL).

Expõe regularmente desde 2012 destacando; Triângulo, Brotéria, Lisboa (2021) Les Amis du Cadavre Exquis, Duplex Air, Lisboa (2021) Maqam, Projecto Independente, Lisboa (2020) True Node, Galeria Mota Galiza, Porto (2020) I Will Take the Risk, Tomaz Hipólito Studio, Lisboa (2019) Locus19, Calçada Ribeiro Santos 19, Lisboa (2018) Hábito, Igreja S.Vicente, Évora (2018) Osmóptico, Espaço AZ, Lisboa (2017) Objecto Anamórfico, Museu Geológico, Lisboa (2017) Rocks and Clouds, Galeria Sá da Costa, Lisboa (2016) Périplos, CAC - Centro de Arte Contemporânea, Málaga (2015) Plano Imanente, Galeria Alecrim 50, Lisboa (2014)

Tem-se dedicado ao ensino artístico como professor no Ar.Co (2018-21) e em gravura através do Atelier Cabine, projecto que fundou em 2016. Foi assistente do artista Miguel Branco (2016-18).

Encontra-se representado nas colecções CAC Málaga - Centro de Arte Contemporâneo, Luciano Bennetton - Imago Mundi, Múltiplos Carpe Diem, Colecção Figueiredo Ribeiro e a Colecção Manuel de Brito - Galeria 111. Foi selecionado para o Prémio Arte Jovem Millenium BCP (2021).