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João Abel Manta, A Máquina de Imagens 

 

Quase trinta anos depois da última (e única) grande exposição dedicada à obra gráfica de João Abel Manta (n. 1928), a Fundação D. Luís I traz de novo ao contacto com o público uma alargada amostra de um dos mais importantes portefólios de desenho, ilustração, design e cartoonismo do último século em Portugal.

Dos seus desenhos da década de 1940, feitos na conjuntura do final da II Guerra Mundial e de um envolvimento com o MUD Juvenil na esperança lograda do fim do Estado Novo, até às últimas e esporádicas contribuições na década de 2000, quando já só estava investido na pintura, a exposição JOÃO ABEL MANTA: A MÁQUINA DE IMAGENS (do título de um artigo do crítico José Luís Porfírio em 1992) vem procurar relembrar o lugar cimeiro do artista como interventor gráfico no tempo nacional, em particular nos sete anos dramáticos da queda de Salazar e a chegada de Marcello Caetano em 1968 até às últimas horas da Revolução de Abril, a 25 de Novembro de 1975.

Apresentando peças provindas do Museu de Lisboa, do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado e da Fundação Calouste Gulbenkian, bem como da colecção do artista, a exposição permite ao visitante contextualizá-las com livros, revistas e jornais em que Manta interveio, bem como com um conjunto de pequenos filmes, que incluem entrevistas ao artista e as curtas Pintura Colectiva de Manuel Costa e Silva (1974), Revolução de Ana Hatherly (1975) e A Noite saiu à Rua de Abi Feijó (1987).

"Em vez da galeria, foi-se ao jornal e ao cartaz", resumiu Cardoso Pires o chamamento que deu fama ao artista. Mas cada nova exposição de João Abel Manta – acontecimento raro ao longo dos anos – corresponde a uma luta pela memória permanente deste trabalho e pela sua passagem a novas gerações e, sobretudo, a um pedido de mais exposições ou, mesmo, de um espaço para a exposição de toda esta obra finalmente em permanência. Não caia este (novo) pedido em ouvidos moucos.

 

Pedro Piedade Marques
Curador

 MANTA catalogo

 
 

 

 1. 

O Arranque como desenhador e opositor a Salazar

 (finais dos anos 1940 a meados dos anos 1950)

 

Nascido em Lisboa, em 1928, João Abel Manta foi filho único de dois pintores (Abel Manta e Clementina Carneiro de Moura) e criança precoce no convívio com outros artistas, outros países (França, Itália, Inglaterra) e, decorrente disto, na expressão artística.

Inscrito na Escola de Belas Artes de Lisboa em 1945, Manta revela uma linha elegante e segura já antes dos 20 anos, não isenta de ligeiras (e compreensíveis) influências neo-realistas. O artista compromete logo o seu desenho às suas convicções políticas de oposicionista ao Estado Novo e a Salazar: enfileirando no MUD (Movimento de Unidade Democrática) Juvenil, oferece um desenho alusivo ao Natal de 1947, cuja reprodução e venda reverterá para o apoio a membros do MUD entretanto presos. A sua é a geração que espera, com a derrota das forças do Eixo na II Guerra Mundial, a capitulação do regime de Salazar, e um dos modos de oposição a este é a inscrição, nesse ano, na II Exposição Geral de Artes Plásticas (EGAP) da SNBA, alternativa à oficial do SNI (Secretariado Nacional de Informação, ex-SPN, Secretariado de Propaganda Nacional).
O activismo político valer-lhe-á a prisão em Fevereiro de 1948, com duas semanas passadas em Caxias, e uma ficha nos arquivos da PIDE.

Formando-se brilhantemente como arquitecto nas Belas-Artes (onde estabelece amizade com Rolando Sá Nogueira e José Dias Coelho, que seria assassinado pela PIDE em 1961), inicia a sua actividade no início da década de 1950. Outra amizade, que dará sumarentos frutos no futuro, se fixa nestes anos: com José Cardoso Pires.

Deste período, mostram-se, sobretudo, as primeiras provas daquilo em que Manta será exímio: o retrato de figuras da cultura, expresso numa variedade tonal e de registo linear assombrosa, da linha mais limpa de um Stravinski ao chiaroscuro de um dos muitos Aquilinos que desenhou.

 

 

 

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O MORTEIRO, Tinta-da-china, 1957

 

 

 2.

Entre Lisboa e o Mundo:

O desenhador premiado e as "Séries Temáticas"

 (meados dos anos de 1950 aos anos de 1970)

 

Sócio inicial da Cooperativa de Gravadores Portugueses, criada em 1956, João Abel Manta dedicou-se então à gravura, mas foi, porém, o seu desenho a tinta-da-china que rapidamente ganhou desenvoltura e cor, atraindo sobre ele atenções e levando-o a expor no exterior a partir do início da década de 1950 (na Bienal de São Paulo, em Lugano, em Tóquio, etc). Em 1961, o Ornitóptero obteve o prémio máximo de desenho na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Gulbenkian. Era um portefólio que aliava a obsessão bizantina com os detalhes "cenográficos" a uma representação fisionómica tingida de tensão expressionista, num universo sombriamente fin-de-siècle, uma Belle Époque que apenas suspeitava da iminente decadência, permeado das suas referências literárias modernistas (Kafka, Jarry), em que o artista não hesitava em se inserir, num (raro) auto-retrato familiar com os pais, a esposa e a sua filha.
Em 1965, foi-lhe atribuída a medalha de prata na Exposição Internacional de Artes Gráficas de Leipzig (RDA).
Expostas em 1976 no ICA (Institute of Contemporary Arts) de Londres, cidade que, a partir dos anos de 1960, passaria a ser o seu segundo porto, as "séries temáticas" desenvolviam as experiências anteriores e foram o pico da obra de desenhador de João Abel Manta, revelando sobretudo um burilamento técnico e uma polivalência estilística, e fazendo conviver no mesmo plano o quase abstracto e a notação cenográfica (Situações Shakespearianas, Gaslight) com detalhes oníricos e grotescos devedores do Surrealismo (Mulher e Pássaro, Missionários, Um caso para o Santo Ofício).

 

 

 

 3.

O Ilustrador Surpreendente

 (de meados dos anos 1950 aos anos 2000)

 

A ilustração de livros apareceu a João Abel Manta a meio da década de 1950, numa série de desenhos para a Carta de Guia de Casados, o clássico de 1651 de Francisco Manuel de Melo, com conselhos matrimoniais a fidalgos; a edição não avançará, mas José Cardoso Pires viu os desenhos e lembrar-se-ia deles na Cartilha do Marialva (1960), escrevendo aí as primeiras linhas entusiásticas sobre o trabalho de Manta. O seu estilo evoluiria de uma linha clara, plena de bonomia, para uma multitude estilística, de formas mais complexas, tortuosas, a um quase abstraccionismo Pop, em que a colagem se instalaria. As suas ilustrações para os Corvos de Leitão de Barros, para contos de Aquilino, para a edição do Decameron de Bocaccio, para a Arte de Furtar, para a 4ª edição da Cartilha e o Dinossauro Excelentíssimo de Cardoso Pires, para O Primeiro de Maio de Eça foram notáveis, tal como a sua colaboração com a breve revista Almanaque.
A partir da década de 1990 foi já o pintor que se sobrepôs ao ilustrador, ou melhor, as suas "ilustrações" para textos de Aquilino (Quando os Lobos Uivam) ou Saramago (Memorial do Convento) foram extensões, em escala reduzida, do seu trabalho na tela.

 

 

 

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FESTIVAL, Poster nas páginas centrais do suplemento "A Mosca" do Diário de Lisboa, 1972
 

 

 4.

Um Cartoonista apesar da Censura

 (1969-1973)

 

Com a chegada de Marcello Caetano ao poder em 1968, depois da queda de Salazar, a imprensa respirou de um inesperado ainda que limitado alívio. Esse alívio seria a mola para o início da colaboração de João Abel Manta com o Diário de Lisboa em 1969 (através de José Cardoso Pires), numa função quase solitária em Portugal, depois de quatro décadas de ditadura: a de caricaturista ou "cartoonista", comentador gráfico do devir noticioso nacional e internacional, função em Manta tão mais notável quanto se tratava de um arquitecto e artista conceituado e premiado, já com mais de 40 anos.

Regenerando a sua veia oposicionista de duas décadas antes, com verve, garra e uma capacidade técnica e artística apurada, Manta iniciou um trabalho de publicação semanal, embatendo de imediato contra o "exame prévio" na imprensa, uma fricção que lhe custará a proibição de muitos desenhos (a começar por um dos seus melhores, o Regresso da Velha, sobre a manutenção da censura sob Caetano) mas que lhe permitirá também aperfeiçoar modos de "enganar" o censor. Num "requerimento" indirecto à censura prévia, em 1969, chegou a pedir "liberdade" para o seu trabalho, listando os nomes dos caricaturistas e satiristas que o inspiravam: Honoré Daumier, Jean-Louis Forain, John Heartfield, George Grosz, Robert Osborn, Feliks Topolski, Saul Steinberg, André François, David Levine, etc.
Sem concorrência na imprensa, Manta manteve cinco anos de actividade ininterrupta, indo dos pequenos desenhos a 1/4 de página no suplemento "Mesa Redonda" à famosa galeria de retratos a página inteira no número dos 50 anos do jornal em 1971 e nas capas do "Suplemento Literário", continuando na série feita com Cardoso Pires "O Burro-em-Pé", até aos posters nas páginas centrais do suplemento "A Mosca" em 1972, depois da introdução da impressão em offset no ano anterior, evolução técnológica que lhe permitiu propor desenhos e colagens em que a cor se impunha. Um destes posters, "Festival", seria o alvo de uma queixa por parte de Barradas de Oliveira no jornal do partido único, o Época, que se transformaria num processo movido pela Direcção-Geral da Informação por ofensa à bandeira nacional. Manta sairia absolvido no início de 1974, mas não voltaria a publicar na imprensa do final de 1973 até ao 25 de Abril.
Foi com o Diário de Lisboa que o Manta interventivo e incómodo se ergueu e foi para o jornal que fez alguns dos seus mais conhecidos e populares desenhos, mapeando o cenário mental e cultural dos últimos seis anos do Estado Novo, e continuando depois da Revolução um trabalho de comentário gráfico, nesse e noutros jornais, que, mesmo com a chegada de novos e talentosos cartoonistas (Vasco, Cid), se manteve inigualável.

 

 

 5.

O Artista e o Designer Polivalente

 (anos de 1960, 1970 e 1980)

 

Próxima à sua actividade de arquitecto, a concepção de painéis de azulejos aplicados a fachadas ou muros permitiu aumentar a escala do meticuloso desenho de Manta e expô-lo no cenário urbano, o que o seu trabalho para a Associação Académica de Coimbra na década de 1950 evidenciava sobremaneira. No pólo oposto, os selos não o limitavam e nesse reduzido formato produziu belas peças, numa perfeita adequação de tipografia e desenho.
Mais vezes chamado a ilustrar do que a conceber as capas de livros e revistas, Manta teve ainda assim nestes suportes uma sólida intervenção como designer, não apenas como capista (as duas belas capas do Almanaque, a capa do Dinossauro Excelentíssimo ou a de Sem Papas na Língua de Beatriz Costa, etc), mas, a partir do início da década de 1970, como cartazista, sobretudo para as peças de teatro para as quais produziu cenografia e guarda-roupa, um novo acrescento ao seu variado portefólio (como o cartaz da encenação de O Processo de Kafka), ou para filmes (o cartaz de Benilde ou a Virgem Mãe de Manuel de Oliveira).

 

 

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MFA,POVO, Cartaz, 1975

 

 

 6.

A "Primavera Incerta" e o Verão Quente: 

O Artista da Revolução e do PREC

 (1974-75)

 

Depois do hiato provocado pelo processo ao poster "Festival" em 1973, Manta só voltaria a publicar no Diário de Lisboa a 28 de Abril de 1974, um cauteloso poster intitulado "Primavera?" Mas se dúvidas ou incertezas quanto ao andamento da Revolução o assolavam então, depressa elas dariam passo a uma enérgica e prolífica actividade de cartoonista de primeira página, comentando a nova vida nacional nesse jornal, no Sempre Fixe e ainda no renovado Diário de Notícias e, mais tarde, n'O Jornal. Com uma reputação inatacável de máximo (e, antes de 1974, quase único) cartoonista português, Manta aplicou neste esforço hercúleo maravilhas de composição e condensação visual, pela pressão dos prazos e a multiplicidade de pedidos, num estilo por vezes de uma desarmante simplicidade, em que as experiências anteriores de conjugação do desenho com recortes de fotografias ou velhas gravuras oitocentistas se renovam (veja-se as admiráveis paródias aos cartazes turísticos do SNI em "Algarve" e "Braga", assumindo a pichagem política nas paredes como novo tipo iconográfico nacional).
A sua ligação ao cerne do esforço revolucionário adensou-se a partir de 28 de Setembro de 1974, executando cartazes para as Campanhas de Dinamização Cultural do Movimento das Forças Armadas (MFA), actividade que se reforçou depois do 11 de Março de 1975. Foi neste contexto que produziu a que foi, possivelmente, a sua mais conhecida e reproduzida imagem, o cartaz "POVO/MFA", aplicando nele a inteligência do designer e a simplicidade de recursos do cartoonista, cartaz que se imprimiu aos milhares e se espalhou pelo país, e de cuja imagem se fizeram também postais e uma série de selos (e uma versão que incluía Vasco Gonçalves entre o soldado e o camponês). Se o PREC e os anseios revolucionários tiveram uma imagem, foi esta.
O ano e meio de produção febril e talentosa terminava a 25 de Novembro de 1975, não sem antes ter publicado, a 8, mais uma imagem antológica: Mário Soares e Álvaro Cunhal, que se tinham digladiado num célebre debate na RTP, ajoelhados no confessionário perante um Zé Povinho zangado.
No final desse ano foi publicado Cartoons 1969-1975, um marco importante com que se fechava este período de máxima exposição e dádiva.
Londres foi então, para Manta, o refúgio de uma situação pós-revolucionária nebulosa em Portugal e o local de preparação dos desenhos para a edição de Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar (1978).

 

 7.

Resolver o Fantasma de Salazar:

"Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar"

(1978)

 

Necessitando de uma pausa depois do 25 de Novembro de 1975, Manta recolheu-se em Londres e lá começou a congeminar o exorcismo que se lhe impunha: o do fantasma de Salazar. Se antes de 1974, e por força da censura, o ditador só aparecera num desenho publicado, e mesmo se durante o PREC ele surgira aqui e ali, chegara a hora de uma autópsia mais detalhada aos quase 50 anos de sombra que o todo-poderoso Presidente do Conselho lançara sobre o país, de uma descrição mais íntima das causas, do processo e dos efeitos dessa estranha infecção de décadas no tecido mental do povo português.

O resultado foi um livro único na bibliografia portuguesa, uma história do Estado Novo (e da História nacional que o Estado Novo distorcera ou engrandecera para se justificar) sem uma única palavra, em quadros de colorido vibrante e claríssima composição, como um desfile ininterrupto de marionetas grotescas numa marcha popular organizada por um misantropo director de manicómio, no fim tão louco quanto os que o seguiam. Anos mais tarde, o próprio Manta admitiria que chegara até a sonhar obsessivamente com Salazar, algo que o ambiente onírico e opressivo, quase violento e insuportável, de alguns dos desenhos comprova cabalmente.
Lançado em 1978, Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar comprovaria ser a obra-prima de João Abel Manta, tendo os retratos de Salazar nela contidos uma tal força magnética, que o próprio Júlio Pomar admitiria ter copiado o seu Salazar do de Manta, para a ilustração de O Burro-em-pé de Cardoso Pires. Apesar do impacto gritante dos desenhos, a edição revelaria ainda o Manta designer, num dos mais belos livros nacionais das últimas décadas.

 

 

 

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Primeira e última páginas da primeira edição do JORNAL DE LETRAS E ARTES 1981

 

 

 8.

O Jornal como meio de realização gráfica:

A experiência do "Jornal de Letras e Artes"

 (1981)

 

Fundado em 1981 pelo ex-advogado, jornalista, amigo e editor de João Abel Manta, José Carlos de Vasconcelos, o Jornal de Letras e Artes procurou reanimar uma tradição de jornais culturais que, até à década de 1960, fora forte em Portugal. A decisão que tornou esse projecto único, no seu arranque, foi a de entregar apenas a Manta a imagem do jornal, do logótipo às ilustrações, o que o artista fez com uma ainda surpreendente energia criativa. A sua já longa relação com os jornais atingia assim a plena realização a um nível de decisão editorial: os seus desenhos e colagens eram agora um meio de afirmação de um título, a um ponto de se pensar que o jornal não poderia existir sem essa marca identitária.
Nos números consecutivos do Jornal de Letras e Artes em que colaborou, com liberdade para dar uso à sua erudição, Manta aproveitou para contribuir com inúmeros retratos de figuras culturais que aumentariam um impressionante panteão gráfico da cultura nacional e internacional, novamente num leque alargado de estilos, mas em que se destacava o dramático chiaroscuro que a técnica de carvão permite.

 

 

 9. 

Um Panteão Pessoal, um Museu de Cera:

"Portugal, um problema difícil"

 

Retratista de raro talento desde muito cedo, João Abel Manta foi-o em todos os materiais com que trabalhou, do lápis e do carvão ao óleo sobre tela. Foi, todavia, pela tinta-da-china, com que desenhou um cada vez maior número de retratos para jornais a partir da década de 1970, que se notabilizou como fixador e "curador" de uma galeria única da memória cultural nacional, sobretudo a da passagem do século XIX para o XX e a das primeiras décadas deste, uma era cujas figuras de proa povoam este portefólio. Eça, Pessoa, Aquilino, Almada, entre outros, tiveram direito a retratos notáveis, mas mesmo atrás no tempo as suas versões de Camões, Bernardim Ribeiro ou António José da Silva fixaram imagens inesquecíveis, sem esquecer, como é óbvio, os desenhos em que fixou os seus contemporâneos e amigos, como José Cardoso Pires, Fernando Assis Pacheco, Cândido Costa Pinto ou Jorge Vieira.
Esta área inclui alguns retratos feitos pelo artista a óleo sobre tela entre 1991 e 2009.

 

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João Abel Manta no seu atelier (Lisboa, 1992) Foto: Joao Ribeiro / Jornal de Letras e Artes

 


João Abel Manta nasceu em Lisboa, em 1928. Filho único dos pintores Abel Manta e Clementina Carneiro de Moura, recebeu uma educação liberal e sob a égide dos princípios políticos de um certo republicanismo derrotado em 1926. Manifestou desde muito cedo uma aptidão inata para a produção artística, e acompanhou os pais em viagens a França, Inglaterra e Itália, beneficiando também do convívio com o grupo de artistas e escritores que frequentavam a casa dos pais. Inscreveu-se nas Belas Artes em Arquitectura, em 1945, curso que cumpriu com distinção. Envolveu-se no MUD (Movimento de Unidade Democrática) Juvenil após o fim da II Guerra Mundial, concedendo desenhos cuja reprodução e venda revertiam para o apoio a membros do MUD presos. Foi preso pela PIDE em 1948 e passou duas semanas em Caxias. Recusando expor nos salões do Secretariado Nacional de Informação, inscreveu-se nas Exposições Gerais de Artes Plásticas da SNBA, que se opunham àqueles.
A par da sua actividade de arquitecto, iniciou a de gravador e, sobretudo, de desenhador, que o levou, ao longo dos anos seguintes, a expor fora do país (São Paulo, Lugano, Leipzig, Tóquio, Londres). Ganhou o prémio de desenho na II Exposição de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian em 1961 e a medalha de prata na Exposição Internacional de Artes Gráficas e do Livro de Leipzig, em 1965.
Ilustrador esporádico de Aquilino Ribeiro, Bocaccio, Dante e outros, colaborador da revista Almanaque, Manta foi lançado para a ribalta com a colaboração regular como "cartoonista" do Diário de Lisboa a partir da Primavera de 1969, a convite de José Cardoso Pires. Em cinco anos de colaboração ininterrupta, criou desenhos e séries que se tornaram no símbolo da resistência do vespertino à situação política, cuja censura proibiu vários desenhos de Manta. Em 1972, foi-lhe movido um processo por ofensas à bandeira nacional no poster "Festival", processo de que saiu ilibado, mas sem poder voltar a publicar em jornais. Regressou à imprensa logo após o 25 de Abril, para uma actividade ainda mais intensa e noutros jornais, de que se destacaram o Diário de Notícias, dirigido por Ribeiro dos Santos, e O Jornal, dirigido por José Carlos de Vasconcelos. Foi colaborador das Campanhas de Dinamização Cultural do MFA, para as quais fez um dos seus mais famosos e reproduzidos cartazes, "POVO,MFA". Pouco depois do 25 de Novembro de 1975, saiu o álbum Cartoons 1969-1975, que reunia a sua produção para jornais nesses anos, e Manta afastou-se momentaneamente para Londres, onde preparou os desenhos da sua obra-prima, Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar, livro saído em 1978. Entretanto, ao longo da década manteve diversa actividade como cartazista, director artístico de teatro e ilustrador.
Regressou uma última vez à imprensa para ser o director de arte e único ilustrador do novo Jornal de Letras e Artes, em 1981.
Apesar de raros trabalhos de ilustração, a partir do final da década de 1980 dedicou-se totalmente à pintura.
A sua obra gráfica foi exposta na sua quase totalidade apenas em 1992, no Museu Bordalo de Lisboa, sendo desde então raras as exposições desta sua faceta criativa. A sua pintura esteve exposta em Lisboa também, no Palácio Galveias, em 2009.

 

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