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RENDIÇÃO

 

O momento e a situação em que a obra foi pintada circunscrevem-se à minha residência na ilha de Lanzarote. As pinturas estão marcadas pela aceitação de ter que me mover dentro de limites. Aceitar estas barreiras, mover-me dentro delas, ampliou o meu campo de ação e levou-me, ao mesmo tempo, a um generoso mundo de introspecção e despertar.

É um projeto pensado num momento de aguda tomada de consciência. Depois de ter estado submergida na cor como expressão máxima, com Rendição inicio uma viagem pessoal de introspecção e indagação, através da obra monocromática, da qual brotam gritos e sussurros, prantos e fluidos. São 52 as pinturas desta metamorfose ou transfiguração, na qual o negro passa ao branco ou à cor, e a forma ao plano ou ao vazio. É um conjunto de pinturas que imagino como um ciclo. Pinturas que que ainda não fecham – e não sei se chegarão a fechar – este leve e incessante processo que imagino como um itinerário circular, nas quais renuncio ao impecável para mostrar algo mais veemente.

 

 

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Rendição reflete o ato de pintar, o momento da criação, embora seja mais um estado do que um momento; uma forma de estar perante si mesmo e perante a obra. Nunca tinha estado tão ligada à pintura e ao meu corpo como nestes papéis, entendendo o corpóreo como pele, ou antes como entranha. A pintura moveu-se na sua liquidez, com a sua matéria, sobre a humidade do papel. Colada a ela, um mundo formal, desfeito e informe, que transpira da forma para algo mais definido, totalmente contíguo, como uma espécie de projeção de uma sexualidade, do íntimo com a intimidade da pintura.

São as pinturas mais abstratas até agora. O pigmento é pousado como terra, a água erode o material, encharca o papel, e a pintura chove e chora. As formas saem, gravam-se no papel; só tenho que as deixar aparecer. Encontrei neste esforço de não estar, neste ato de rendição, a comunicação máxima com o ato de pintar, de viver e de estar. Estas manchas que mal existem, que se alimentam umas das outras, sempre voláteis, borradas e dissolvidas, contêm o tempo e a espera de chegar a ser, após uma infinita soma de nada, ou quase nada, fruto do impulso discreto que deixa a marca da retração do ato de pintar, de uma pintura isenta de vaidades, uma pintura "suja", se entendermos a sujidade como a ausência de pretensão de beleza ou atratividade. É a procura de um caminho em direção ao sublime, através da renúncia à intervenção, à representação e à cor.

 

 

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Escolhi o papel como suporte por ser permissivo, porque sofre, dilata-se, tem memória; mantém a lembrança daquilo que por ele passa. Trato o papel como um ser recetivo: estabelece-se um diálogo entre o papel que aceita a matéria, a matéria em si e eu, como mediadora do processo. Surge uma narrativa que tem a ver com o ânimo, com o sentir, com o ver e o deixar-se ver. A pintura transforma-se em pintora e a pintora em pintura. Pinto com água que verto sobre o papel. A tinta pousa sobre o papel e movemo-nos os três: mancha, tinta e pintora. Nenhum dirige o movimento do outro. Eu movo-me com a água, a água move a tinta, e o papel desencadeia o meu movimento. Pinta também o tempo, que desaparece, detido pela tinta pousada. E nessa quietude em que o seca ou fossiliza, o tempo fica preso, ou talvez liberto.

No processo da pintura, o papel branco e vazio espera a ocupação das ilhas de tinta que diluem os seus limites e sobrepõem espaços no seu sonho de não ser plano. A cada passo incerto pode aparecer a leveza, filho, pai ou mãe da pedregosa ilha ou meteorito. Assim, uma após outra, as pinturas, no inexplicável ato de serem pintadas – numa pulsão, mais do que num impulso – ocupam esse leito vazio.

São pinturas sóbrias, pesadas e simultaneamente ligeiras, que partem do nada, de uma mancha muda. Aceitam o tempo, o sedimento, o escorrimento. São sinceras porque se tornam honestas perante a pintura. Sinceras, leves, sombrias – talvez o sejam. Talvez não.

 

 

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NURIA VIDAL

Nasceu em Madrid e se formou em Belas Artes pela Universidade Complutense de Madrid na especialidade de gravura.

Em seus anos de formação, ele obtém uma série de Bolsas de Estudos que favorecerão sua pesquisa artística em pintura e gravura.

Em 1991, ele viajou para Leeds com uma bolsa erasmus da União Europeia para o Centro de Artes e Estudos Contemporâneos, na Universidade Metropolitana de Leeds,Grã-Bretanha. Durante esses anos de treinamento, Nuria começa a desenvolver um trabalho pessoal no trabalho gráfico que mostra parcialmente em feiras e concursos. Em 1996 ele recebeu a menção de um novo artista do Prêmio Nacional de Calcografia com a obra Castillos en el aire. É então que ela se destaca em seu trabalho como uma gravadora mergulhando-se no mundo da cor e da impressão dentro do gráfico e do trabalho no papel.

Em 2000, recebeu a bolsa de estudos da Academia Real da Espanha em Roma. Dedicada com a mesma intensidade à pintura e gravura, Nuria Vidal realiza uma série de projetos em torno do tema geometria e cor inspirados na cidade de Roma.

Ela viaja para Paris em 2003 como residente no Colegio de España, em Paris. Em seu estúdio no Cité des Arts ele dedica suas pinturas à leveza; nesse período ele fez uma série de trabalhos sobre linho, quase imperceptível de nuances e maciez, que refletem a luz e as névoas da cidade de Paris.

Os anos de profunda busca em seu trabalho artístico dotaram seu trabalho com uma incrível qualidade plástica, na qual a abstração lírica nos leva a misteriosos limiares de cor, transparência e luz.